Uber vs taxistas: por que temos tanto medo da inovação?

Uber, o aplicativo de “caronas pagas” é bom em duas coisas: transportar pessoas e gerar polêmicas. Em pouco mais de 6 anos de funcionamento, a empresa já está presente em centenas de cidades espalhadas por dezenas de países. Mas para cada sucesso, vem um embate: somente nas duas últimas semanas, o aplicativo enfrentou protestos violentos em Paris (que incluíram carros incendiados), prisão de dois executivos e uma derrota preliminar imposta pela Câmara dos Vereadores de São Paulo ontem, 30 de Junho. Mas por quê o caminho da inovação é sempre complicado? Por que tanto receio? O Uber não é um exemplo isolado. iPod, livros eletrônicos, streamings de música e filmes, drones, Airbnb. Mais antigamente, até mesmo DVD’s e fitas-cassete tiveram pesadas críticas, sempre capitaneadas por grupos com interesses muito específicos em manter as situações do jeito que sempre foram. O problema é que esses interesses não refletem, necessariamente, a opinião pública e o benefício coletivo. São minorias que têm receio de perderem mercado para novos competidores. No caso do Uber, as críticas mais pesadas vêm de taxistas e sindicatos.

Claro que não é possível generalizar. Existem vários taxistas que são favoráveis ao Uber por este forçar uma reeducação da classe, fazendo com que táxis criem novas formas para cativar seu público. As principais reivindicações deles também não são infundadas: os motoristas do Uber realmente não estão sujeitos às mesmas taxas e impostos que taxistas regulares. A questão é que a "falta de regulamentação não significa ilicitude", como escreveu o advogado Renato Leite Monteiro em artigo para o Brasil Post. No afã político de atender pressões de certos grupos, pulamos uma etapa fundamental no desenvolvimento e implementação de qualquer inovação: o debate e a análise do elemento disruptivo. É muito improvável que não haja um meio-termo entre motoristas de táxi e particulares, que possa culminar em um mercado regulamentado e atrativo aos usuários e ambas as partes. Só que para se atingir esse meio-termo, é necessário que as empresas e grupos estejam abertos à inovação e dispostas a rever seus processos e práticas.

Um exemplo histórico: durante os meses que precederam a inauguração do iTunes e os anos subsequentes, gravadoras e produtoras lutaram fortemente contra o modelo de venda de músicas online, defendendo um produto que já estava com seus dias contados há muito tempo: o CD. Se a Sony, uma das empresas mais vocais na luta contra a distribuição de música online, examinasse não só o seu modelo de negócios, mas a direção que o mercado estava tomando, poderia ter tomado a decisão de inaugurar sua loja online e fechar acordos com outras distribuidoras muito mais rapidamente, lucrando muito mais no período.

E o mercado já mostra evidências mais do que claras de acomodação às iniciativas de economia compartilhada. O Uber e o Airbnb são as duas startups mais valiosas dos Estados Unidos, com uma avaliação conjunta de mais de 70 bilhões de dólares. E essas empresas são apenas dois exemplos em um oceano de opções e projetos focados na economia compartilhada, modelo que prevê a movimentação de mais de 100 bilhões de dólares na economia americana nos próximos três anos. No Brasil, mais de 30% dos celulares já são smartphones e no primeiro trimestre de 2015, 93% de todas as vendas de aparelhos móveis foram de smartphones, evidenciando que essas empresas começarão a ser muito mais presentes na vida dos brasileiros nos próximos anos.

Em uma cidade como São Paulo, com mais de 11 milhões de habitantes, iniciativas como o Uber são essenciais para ajudar a reduzir o número de carros nas ruas e, assim, diminuir o trânsito na cidade, contribuindo para a mobilidade urbana. Essa é uma consequência que é do interesse não só dos usuários do aplicativo, mas de todos os cidadão. Resta agora acompanhar o processo de proibição de funcionamento do Uber e torcer para que a plataforma não seja impedida de funcionar, abrindo espaço para o diálogo e uma regulamentação que seja interessante para todas as partes envolvidas. Se tem uma lição que a história ensinou até agora é que quando uma inovação é adotada e bem-vinda pelo público, dificilmente sua existência será barrada.